📅 quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Notícias
BIOMASSA FLORESTAL: O NOVO GARGALO DA BIOENERGIA BRASILEIRA
Florestal 24/09/2026

BIOMASSA FLORESTAL: O NOVO GARGALO DA BIOENERGIA BRASILEIRA

O assunto biomassa sempre teve alguma evidência, devido ser uma fonte de matéria-prima relativamente barata, às vezes abundante e solução para substituição de combustíveis fósseis. Ultimamente, porém, tem ganhado destaque no noticiário especializado, devido à crescente pressão sobre sua disponibilidade, frente a uma demanda que também cresce rapidamente.

Alguns fatores concorrem para o aumento da demanda de biomassa, especialmente a florestal. As secadoras de grãos aumentaram sua produção juntamente com o aumento da produção agrícola. O uso de biomassa nas caldeiras para obtenção de vapor mostra-se mais barato que óleo BPF ou eletricidade, em muitas aplicações. Mas o mais recente acontecimento é a expansão da indústria de etanol de milho.



O etanol de cana é autossuficiente em energia, em grande parte, pelo bagaço que pode ser queimado. O milho não oferece subproduto equivalente que permita a mesma geração de energia térmica, criando assim uma dependência importante da biomassa de madeira, sendo o eucalipto o principal fornecedor.



O etanol de milho brasileiro vive um momento de forte expansão, mas sua fundação energética começa a ser ameaçada pela disponibilidade e pelo custo da biomassa. O que até pouco tempo parecia ser apenas uma questão de fornecimento começa a se transformar em um fator estratégico para a viabilidade dos novos projetos.



O futuro da bioenergia no Brasil não depende apenas da produtividade dos milharais ou da eficiência das plantas industriais. Depende, fundamentalmente, de uma solução estratégica e de longo prazo para o fornecimento de biomassa.



Investidores devem incluir a análise de disponibilidade e custo de biomassa como fator crítico em seus modelos de viabilidade. O setor, por sua vez, precisa colaborar para desenvolver cadeias de suprimento sustentáveis. E os formuladores de políticas públicas devem criar incentivos para o plantio de florestas energéticas e o desenvolvimento de tecnologias alternativas.



Quem não planejar o suprimento de sua “bateria de carbono” pode descobrir hoje, que sua usina se tornará inviável amanhã.



O Brasil, segundo a IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores), possui hoje cerca de 10,5 milhões de hectares de árvores plantadas, principalmente eucalipto e pinus. O número mostra a dimensão da nossa base florestal, mas não significa que tenhamos madeira disponível para atender à crescente demanda de biomassa.



Grande parte dessas áreas já está vinculada a empresas consumidoras de madeira, principalmente dos setores de celulose, carvão vegetal, painéis e outros produtos industriais. Portanto, não se pode confundir área plantada com disponibilidade de madeira para energia.



Adiante, apresentamos a distribuição macro de ambos os gêneros e suas características para uso.



Eucalipto – Líder absoluto: representa a maior parte da área de árvores plantadas no país e está presente em praticamente todas as regiões brasileiras. Sua biomassa possui características favoráveis ao uso energético, sendo utilizada principalmente na produção de cavaco industrial e lenha para caldeiras, além do carvão vegetal siderúrgico. É também o principal gênero utilizado nas novas florestas destinadas ao atendimento da demanda energética do agronegócio e da indústria.



Pinus – Foco regionalizado: ocupa cerca de 1,9 milhão de hectares e está fortemente concentrado na Região Sul. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram aproximadamente 89% dos plantios de pinus.



Além da madeira, o processamento mecânico gera uma enorme quantidade de subprodutos, como maravalha, serragem e cascas. Esses resíduos são matéria-prima importante para a fabricação de pellets e briquetes.



O “apagão florestal”, comentado há anos no setor, parece que finalmente chegou, ao menos em algumas regiões.



Apesar dos números acima, a disponibilidade de madeira caiu em determinadas regiões, como indica a pressão sobre os preços da madeira de eucalipto e a dificuldade crescente de alguns consumidores para garantir o abastecimento. Não significa que o Brasil tenha ficado sem florestas. Significa que a floresta existente nem sempre está onde a biomassa é necessária, nem está necessariamente disponível para esse mercado. E este é o ponto mais importante de toda essa discussão: a biomassa florestal tem sua demanda aumentada, como já dito, graças ao agronegócio. Só para exemplificar, uma gigante do setor, como a Cargill, utiliza cerca de 1,6 milhão de toneladas de biomassa por ano e anunciou que pretende ampliar para até 40 mil hectares, até 2029, as áreas dedicadas ao cultivo de eucalipto por meio de parcerias florestais. Esse volume deverá representar cerca de 80% da sua demanda. Ou seja, grandes consumidores já estão percebendo que não basta comprar biomassa quando ela for necessária. É preciso garantir a sua produção.



O Mato Grosso é um exemplo ainda mais evidente dessa situação. O Estado possui hoje cerca de 211 mil hectares de eucalipto, enquanto a demanda atual de biomassa já exigiria aproximadamente 198 mil hectares. Para 2030/31, essa necessidade pode chegar a 436 mil hectares.



O que está acontecendo no Mato Grosso é resultado direto da rápida expansão do etanol de milho e de outras atividades do agronegócio que utilizam biomassa para geração de energia. E existe aí um problema de tempo. Uma usina pode ser construída em poucos anos. Uma floresta não. O eucalipto precisa ser plantado com antecedência para que esteja disponível quando a indústria começar a consumir grandes volumes. Se a decisão de plantar vier depois da instalação da indústria, haverá um período em que a demanda estará presente, mas a madeira ainda não estará pronta.



É exatamente aí que aparece o gargalo. O crescimento do etanol de milho é uma realidade e novas plantas continuam sendo anunciadas e implantadas. A própria FS, uma das principais produtoras brasileiras de etanol de milho, opera unidades em Mato Grosso e integra a produção de etanol, nutrição animal e bioenergia em seu modelo industrial.



O problema, portanto, não está na falta de mercado para a biomassa. Está na velocidade com que a demanda está crescendo em relação à velocidade com que novas florestas podem ser formadas. O que fica dessas informações todas é que a imprevidência de vários entes está sendo hoje posta à prova pela necessidade de madeira de uma forma geral.



Durante muito tempo, a biomassa foi tratada como uma matéria-prima abundante, barata e facilmente disponível. Agora, começa a ser vista de outra maneira: como um insumo estratégico. O Brasil tem terra, tecnologia e condições para ampliar suas florestas plantadas. Mas floresta não se faz de um dia para o outro.

Quem pretende construir uma indústria que dependerá de biomassa precisa pensar na floresta antes de pensar na caldeira. Esse talvez seja o grande aprendizado que o atual momento está deixando. A bioenergia pode crescer muito no Brasil. Mas, para isso, será preciso plantar hoje a madeira que será necessária amanhã.


Imagem Manoel Francisco Moreira: Madeira Total

Imagem pellets: ilustrativa

Texto: Manoel Francisco Moreira

———————————————————————————-

Somos o Grupo Multimídia, editora e agência de publicidade especializada em conteúdos da cadeia produtiva da madeira e móveis, desde 1998. Informações, artigos e conteúdos de empresas e entidades não exprimem nossa opinião. Envie informações, fotos, vídeos, novidades, lançamentos, denúncias e reclamações para nossa equipe através do e-mail redacao@grupomultimidia.com.br. Se preferir, entre em contato pelo whats app (11) 9 9511.5824 ou (41) 3235.5015.

​Conheça nossos ​portais, revistas e eventos​!

madeiratotal.com.br

revistavarejobrasil.com.br

megamoveleiros.com.br

revistause.com.br

www.hotex.com.br