📅 quinta-feira, 08 de outubro de 2026
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A CASA QUE O BRASIL AINDA NÃO CONSTRÓI
Florestal 08/10/2026 Por Sol Andreassa

A CASA QUE O BRASIL AINDA NÃO CONSTRÓI

Com quase 5,8 milhões de domicílios no déficit habitacional e uma das maiores cadeias de árvores cultivadas do mundo, o Brasil reúne matéria-prima, indústria e tecnologia para ampliar o uso da madeira na habitação. O que ainda impede essa alternativa de ganhar escala?

Por Sol Andreassa


O Brasil ainda enfrenta um déficit habitacional de quase 5,8 milhões de domicílios. Em 2024, eram 5.773.983 nessa condição, o equivalente a 7,4% dos domicílios particulares ocupados no país, segundo a Fundação João Pinheiro (FJP), instituição responsável pela pesquisa de referência sobre o déficit habitacional brasileiro, desenvolvida em parceria com o Ministério das Cidades. Embora o indicador tenha recuado 3,4% em relação ao ano anterior, sua dimensão continua revelando um dos grandes desafios sociais do país.

E déficit habitacional não significa apenas não ter uma casa. A metodologia considera diferentes situações que compõem o indicador, entre elas habitações precárias, coabitação e ônus excessivo com aluguel urbano. Entram nessa conta famílias que vivem em condições inadequadas, que dividem a moradia por necessidade ou que comprometem parcela excessiva da renda para pagar aluguel.


Enquanto o Brasil procura caminhos para reduzir esse déficit, outra realidade corre quase em paralelo. O país possuía, em 2024, aproximadamente 10,5 milhões de hectares de árvores cultivadas, segundo o Relatório Anual 2025 da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Desse total, cerca de 8,1 milhões de hectares são ocupados por eucalipto e 1,9 milhão por pinus, espécies que abastecem diferentes cadeias industriais. No mesmo ano, as exportações brasileiras de produtos de base florestal somaram US$ 15,7 bilhões. O Brasil também ocupa posições de destaque internacional: é o maior exportador e o segundo maior produtor mundial de celulose, além de figurar entre os principais produtores de painéis de madeira.


Essa base produtiva é acompanhada por um trabalho de normalização e controle de qualidade construído ao longo de décadas. A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (ABIMCI) é a entidade gestora do Comitê Brasileiro de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas, o ABNT/CB-031, responsável pela elaboração e revisão de normas brasileiras relacionadas aos produtos de madeira. A entidade também mantém, há mais de 20 anos, o Programa Nacional de Qualidade da Madeira (PNQM), voltado ao controle e à padronização da qualidade dos produtos ao longo do processo produtivo.


Na construção, um avanço importante ocorreu em 2023, com a publicação da ABNT NBR 16936:2023, norma brasileira para edificações em light wood frame, após sete anos de trabalhos técnicos. O documento estabeleceu parâmetros de projeto, execução e desempenho para edificações térreas ou assobradadas de até dois pavimentos, dentro de seu escopo de aplicação, e retirou do caminho uma das barreiras históricas apontadas para a expansão desse tipo de construção no país.


O contraste torna-se evidente. O Brasil tem árvores cultivadas, indústria, produtos normalizados, programas de qualidade e tecnologia construtiva. Mesmo assim, em um país com milhões de famílias no déficit habitacional, a madeira ainda ocupa espaço limitado na construção de moradias em escala, especialmente na habitação social.

É dessa contradição que surge a pergunta central desta reportagem: se o Brasil tem matéria-prima, indústria, tecnologia e milhões de famílias enfrentando dificuldades de acesso à moradia adequada, por que ainda construímos tão poucas casas com madeira?


Parte da resistência à construção em madeira no Brasil passa por uma questão que acompanha o sistema há décadas: a durabilidade. No imaginário de muitos brasileiros, uma casa de madeira ainda pode estar associada a construções frágeis, vulneráveis à umidade, ao ataque de insetos ou ao fogo. Os sistemas contemporâneos, entretanto, estão distantes da imagem da madeira simplesmente exposta às condições climáticas.


Na construção industrializada em light wood frame, a estrutura faz parte de um sistema composto por diferentes materiais e camadas de proteção. A Tecverde, uma das empresas pioneiras na industrialização desse sistema no Brasil, utiliza madeira estrutural proveniente de florestas plantadas, submetida a processos de secagem e tratamento preservativo. As paredes recebem chapas e membranas de proteção, incluindo barreiras destinadas ao controle da umidade.


Segundo a empresa, a vida útil projetada da estrutura é de no mínimo 50 anos. A durabilidade, entretanto, não independe do uso: assim como ocorre nas construções convencionais, projeto adequado, qualidade da execução, manutenção e proteção contra a umidade interferem diretamente na vida útil da edificação.

A tecnologia utilizada pela empresa também passou por avaliação técnica no Brasil. O sistema estruturado em peças leves de madeira maciça serrada da Tecverde recebeu Documento de Avaliação Técnica (DATec), a partir de avaliação coordenada pelo Instituto Falcão Bauer da Qualidade, contemplando sua utilização em casas térreas, sobrados e edifícios multifamiliares de até quatro pavimentos.


Se no Brasil a construção residencial em madeira ainda provoca dúvidas, em outros países ela faz parte da paisagem urbana há gerações. Nos Estados Unidos, 93% das novas casas unifamiliares concluídas em 2023 foram construídas com estrutura de madeira, segundo análise da National Association of Home Builders (NAHB), baseada em dados do U.S. Census Bureau. Foram cerca de 930 mil residências em um único ano.


A utilização também é historicamente elevada no Canadá e nos países nórdicos. Estudos internacionais mostram participação predominante da madeira na construção de casas unifamiliares nessas regiões, embora os percentuais variem conforme país, período e metodologia. O sistema desenvolvido no Brasil tem referências nessas experiências: a tecnologia empregada pela Tecverde foi adaptada a partir de modelos construtivos internacionais para atender às condições climáticas, normas técnicas e exigências de desempenho brasileiras.

A África do Sul oferece um contraponto. O país possui uma indústria de florestas plantadas e utiliza madeira, inclusive eucalipto, em diferentes aplicações na construção civil. Ainda assim, a adoção de sistemas estruturais de madeira na habitação permanece limitada. Em 2023, o próprio governo sul-africano informou que menos de 1% das casas e edificações do país eram construídas em madeira.


O tema ganhou novo impulso em setembro de 2026, quando a Universidade de Pretória recebeu a quarta Conferência Nacional de Construção em Madeira, realizada em parceria com o Departamento de Comércio, Indústria e Concorrência da África do Sul. O encontro apresentou experiências que vão da habitação acessível, na Cidade do Cabo, a edifícios residenciais de múltiplos pavimentos em Joanesburgo. A iniciativa integra o esforço do país para ampliar o mercado de produtos florestais, estimular a industrialização e explorar novas alternativas para a construção.


Os exemplos internacionais revelam duas realidades. Em países como Estados Unidos e Canadá, a madeira integra há décadas a cultura construtiva. Em outros mercados com disponibilidade de recursos florestais, como África do Sul e Brasil, transformar essa matéria-prima em habitação em escala ainda esbarra em obstáculos culturais, industriais e institucionais.


A comparação desloca o debate brasileiro. A questão já não é apenas saber se uma casa de madeira pode ser durável, segura e tecnicamente adequada. É compreender por que, mesmo com matéria-prima disponível, técnica desenvolvida, capacidade industrial e experiências construtivas já realizadas, o Brasil ainda utiliza tão pouco esse sistema na produção habitacional.


A discussão ganhou um novo componente em 2026. Uma proposta em tramitação no Congresso Nacional pretende incluir expressamente no Minha Casa, Minha Vida a possibilidade de financiamento de unidades habitacionais construídas com madeira proveniente de florestas plantadas.


SE É POSSÍVEL, POR QUE NÃO GANHOU ESCALA?


Em Santos, no litoral paulista, uma experiência concluída em 2026 mostra como a construção industrializada em madeira pode contribuir para enfrentar um dos problemas mais complexos da habitação brasileira: oferecer moradia adequada a famílias que vivem em áreas de elevada vulnerabilidade social e ambiental.

O Parque Palafitas, implantado no Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste da cidade, levou 60 famílias que viviam em condições precárias sobre o manguezal para unidades habitacionais construídas em light wood frame, com painéis industrializados de madeira produzidos pela Tecverde.

A proposta urbanística começou a ser desenvolvida a partir de uma parceria iniciada em 2019 entre a Prefeitura de Santos, a Comunitas e o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados. A iniciativa buscou uma solução que permitisse melhorar as condições habitacionais sem romper os vínculos das famílias com o território.

A escolha do sistema construtivo ganhou relevância diante das características do local. Os painéis chegaram ao canteiro com instalações elétricas e hidráulicas incorporadas, reduzindo a necessidade de intervenções em uma área sujeita à influência das marés. A leveza dos componentes também favoreceu a execução das edificações sobre estruturas suspensas.


O empreendimento ocupa aproximadamente 4 mil metros quadrados e reúne apartamentos distribuídos em edifícios de diferentes alturas e 16 casas térreas. Quatro unidades foram adaptadas para pessoas com deficiência. Além das residências, o projeto contempla espaços comerciais, área para associação de moradores, abastecimento de água, coleta de esgoto, drenagem, acessibilidade e geração de energia solar para as áreas comuns.

A intervenção também prevê a recuperação de trechos do manguezal anteriormente ocupados pelas habitações mais vulneráveis, conciliando reorganização urbana e proteção de um ecossistema fundamental para a região costeira.


Segundo a Prefeitura de Santos, as 60 moradias foram entregues em abril de 2026. Em julho, todas as famílias beneficiadas já estavam instaladas nas novas unidades.

O investimento total informado pelo município foi de aproximadamente R$ 35,1 milhões, incluindo fundações, superestrutura, construção das unidades e infraestrutura viária. Desse montante, R$ 12,6 milhões corresponderam à etapa habitacional executada pela Tecverde. Os valores mostram a composição do investimento público, mas não permitem, isoladamente, concluir que o empreendimento tenha custado menos do que uma solução convencional equivalente.

O projeto-piloto também abriu caminho para uma intervenção de maior alcance. Em janeiro de 2026, o Governo de São Paulo firmou um convênio de R$ 77 milhões com a Prefeitura de Santos e a Companhia de Habitação da Baixada Santista (Cohab-ST) para construir outras 350 unidades habitacionais na Vila Gilda, destinadas a famílias que vivem em áreas inundáveis e em condições de vulnerabilidade socioambiental.


O convênio representa uma nova etapa da política habitacional na região, embora ainda não haja confirmação de que as 350 unidades utilizarão o mesmo sistema construtivo em madeira. O resultado do Parque Palafitas vai além da tecnologia empregada. A experiência mostra como a industrialização da construção pode integrar soluções urbanas que preservam vínculos comunitários, ampliam o acesso à infraestrutura e incorporam a recuperação ambiental ao planejamento habitacional. E Santos não é um caso isolado.


Em Curitiba, o Moradias Nilo, empreendimento do Minha Casa, Minha Vida entregue em 2015, reuniu 66 casas construídas em wood frame. Segundo estudo de caso do Observatório de Inovação para Cidades Sustentáveis (OICS), o conjunto ficou pronto em seis meses, aproximadamente metade do prazo estimado para uma obra convencional de características semelhantes.


Em 2016, São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, recebeu um empreendimento multifamiliar em wood frame com três pavimentos. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Curitiba, a montagem da estrutura foi realizada em apenas 64 horas, sem considerar as demais etapas da obra.

São experiências realizadas em contextos e momentos diferentes, mas que deixam um dado concreto: a construção residencial industrializada em madeira já saiu do campo experimental no Brasil. O que ainda não alcançou foi escala.


A MADEIRA CHEGA AO MINHA CASA, MINHA VIDA


Em 2026, essa discussão chegou novamente ao Congresso Nacional. O Projeto de Lei 5.906/2025, apresentado pelo deputado federal Cobalchini (MDB-SC), propõe alterar a legislação do Minha Casa, Minha Vida para incluir expressamente a possibilidade de financiamento de unidades habitacionais construídas com madeira oriunda de florestas plantadas. O texto também inclui essas tipologias entre as alternativas de inovação tecnológica voltadas à redução de custos e prazos e à melhoria da sustentabilidade da produção habitacional.

Em maio de 2026, a Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados aprovou parecer favorável ao projeto. Entre os argumentos apresentados estão a possibilidade de diversificação dos sistemas construtivos, a existência de norma técnica específica e a previsão de vida útil mínima de 50 anos para essas edificações.

A proposta, porém, ainda não é lei. De acordo com a tramitação registrada pela Câmara dos Deputados, o projeto encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, onde aguarda parecer do relator.


Um estudo do Serviço Florestal Brasileiro sobre habitação social em madeira aponta que ampliar a utilização do sistema exige articulação entre poder público, agentes financeiros, indústria e fornecedores, além de capacitação profissional. Em outras palavras, não basta ter madeira ou tecnologia disponível. É necessário estruturar uma cadeia capaz de responder ao aumento da demanda.


UMA CASA TAMBÉM PODE ARMAZENAR CARBONO?


A discussão sobre o uso da madeira na habitação não termina no custo ou na velocidade da obra. Há outra questão que ganha importância à medida que o Brasil procura reduzir suas emissões de gases de efeito estufa: os materiais escolhidos para construir novas moradias também têm impacto climático.

No caso da madeira, existe uma característica particular. Durante seu crescimento, as árvores retiram dióxido de carbono da atmosfera por meio da fotossíntese. Parte desse carbono permanece incorporada à biomassa e, quando a madeira é transformada em produtos de longa duração, como componentes de uma edificação, continua armazenada durante o período em que o material permanece em uso.


Esse princípio é reconhecido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que inclui os chamados Harvested Wood Products, ou produtos de madeira colhida, na contabilização dos estoques e fluxos de carbono. O efeito climático, porém, não pode ser analisado apenas pelo carbono armazenado no produto. É necessário considerar o ciclo de vida da edificação, incluindo manejo florestal, processamento industrial, transporte, construção, manutenção e destino dos materiais ao final de sua utilização.

É justamente nessa conta mais ampla que a construção em madeira passou a despertar maior interesse internacional. Estudos de avaliação de ciclo de vida indicam que sistemas estruturais em madeira podem apresentar menor carbono incorporado do que alternativas mais intensivas em materiais minerais. O resultado, porém, depende de fatores como projeto, origem da matéria-prima, processamento, distâncias de transporte e destino dos materiais ao final da vida útil.


O QUE, ENTÃO, ESTÁ FALTANDO?


Se a madeira proveniente de árvores cultivadas está disponível, existem empresas capazes de industrializar a construção, normas técnicas foram estabelecidas e experiências brasileiras mostram que o sistema pode ser utilizado inclusive em habitação social, por que sua participação ainda é pequena?

A resposta não está em um único obstáculo. A construção convencional possui uma cadeia consolidada no Brasil. Projetistas, construtoras, fornecedores, trabalhadores, agentes financeiros, seguradoras, incorporadoras e órgãos públicos operam dentro de processos conhecidos e repetidos há décadas. Introduzir outro sistema significa alterar diferentes pontos dessa engrenagem ao mesmo tempo.


A norma técnica retirou uma das barreiras, mas ganhar escala exige outras peças funcionando simultaneamente: projetistas familiarizados com o sistema, mão de obra treinada, fornecimento regular de componentes, capacidade industrial, agentes financeiros preparados para avaliar os empreendimentos e consumidores dispostos a aceitá-los.

É nesse último ponto que aparece uma barreira menos mensurável: a percepção cultural.


Nos Estados Unidos, onde mais de nove em cada dez novas casas unifamiliares concluídas em 2023 utilizaram estrutura de madeira, o material faz parte da construção residencial cotidiana. No Brasil, apesar da disponibilidade de matéria-prima e