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O PINUS ALÉM DA MADEIRA: A NOVA ECONOMIA DE UMA ÁRVORE
Notícia 04/11/2026

O PINUS ALÉM DA MADEIRA: A NOVA ECONOMIA DE UMA ÁRVORE

Da floresta à indústria, uma cadeia de negócios construída ao longo de 120 anos revela como o Paraná transformou o pinus em matéria-prima para diferentes setores da economia, e porque o próximo salto de competitividade pode estar no valor extraído de cada árvore.

Há uma economia inteira dentro de uma árvore. Antes de chegar às fábricas de móveis, painéis, embalagens, papel ou materiais de construção, o pinus já mobilizou viveiros, trabalhadores, pesquisas, máquinas, transporte e investimentos de longo prazo. Depois da colheita, a matéria-prima percorre diferentes processos industriais, conectando a floresta a mercados que nem sempre são associados à silvicultura.


Em 2026, os 120 anos da introdução do gênero Pinus no Brasil oferecem uma oportunidade de observar o alcance dessa transformação. No Paraná, o desenvolvimento da cadeia foi além da oferta de madeira: ajudou a estruturar empresas, fornecedores e economias regionais. A questão agora não é somente quanto se produz, mas quanto valor se consegue gerar a partir de cada árvore, e quanto desse valor permanece nas comunidades produtoras.



Acículas de pinus iluminadas pela luz do sol revelam os detalhes da folhagem de uma espécie que, ao longo de 120 anos de presença no Brasil, passou a integrar a paisagem e a economia florestal paranaense. Fotografia realizada em Telêmaco Borba (PR), em dezembro de 2025. Foto: Sol Andreassa


O PARANÁ NA ECONOMIA FLORESTAL BRASILEIRA

Segundo a Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada pela Casa Civil do Governo do Paraná, o estado registrou R$ 6,9 bilhões em valor da produção florestal, crescimento de 20,7% ante 2023. Desse total, R$ 6,34 bilhões vieram da silvicultura. A atividade alcançou 391 dos 399 municípios paranaenses, e o estado reunia aproximadamente 670,7 mil hectares plantados com pinus; a maior área do país destinada ao gênero naquele levantamento.

Os dados mais recentes ampliam a perspectiva. De acordo com a PEVS 2025, divulgada pelo IBGE e repercutida pela APRE Florestas, a produção florestal brasileira atingiu R$ 47,9 bilhões; a silvicultura respondeu por R$ 41 bilhões, ou 85,6% do total. No Paraná, o valor da produção da silvicultura chegou a R$ 6,9 bilhões em 2025, crescimento de 6,5% em relação ao ano anterior. Vale destacar que esses valores abrangem espécies e produtos florestais diferentes e não podem ser atribuídos integralmente ao pinus.


UMA ÁRVORE, DIFERENTES NEGÓCIOS

A destinação industrial depende das características da madeira. Toras de maior diâmetro podem seguir para serrarias e produtos sólidos; outras frações abastecem fabricantes de painéis e celulose. Resíduos do processamento podem ser aproveitados energeticamente. O pinus também participa de cadeias de embalagens, construção civil e móveis, em aplicações que exigem diferentes níveis de processamento e qualidade.

Na indústria de papel e celulose, o pinus também desempenha um papel estratégico. Suas fibras longas conferem resistência aos papéis utilizados em embalagens, papel kraft e papelão ondulado. A celulose extraída da espécie também é empregada na fabricação de produtos absorventes, como fraldas e itens de higiene. Um exemplo dessa aplicação está na Klabin, que utiliza tanto pinus quanto eucalipto em seus processos industriais. Na Unidade Puma, localizada em Ortigueira, no Paraná, a companhia produz celulose de fibra longa, proveniente do pinus, e de fibra curta, obtida do eucalipto. A operação demonstra como a produção florestal paranaense abastece diferentes segmentos industriais, ampliando o alcance econômico de uma matéria-prima que integra cadeias produtivas distintas.


PRODUTIVIDADE E INTEGRAÇÃO: A EXPERIÊNCIA INDUSTRIAL

Segundo o Relatório Anual 2025 da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a produtividade média do pinus no Brasil foi estimada em 31,1 metros cúbicos por hectare ao ano em 2024. Entre as empresas associadas à Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE Florestas), o Estudo Setorial APRE 2024 registrou incremento médio anual de 31,75 metros cúbicos por hectare ao ano em 2023. Embora correspondam a períodos e universos distintos, os indicadores ajudam a dimensionar a produtividade alcançada pela silvicultura brasileira, resultado de décadas de investimentos em pesquisa, melhoramento genético e técnicas de manejo.

A Berneck exemplifica a articulação entre floresta e indústria. Em informações fornecidas ao material da APRE, Afonso Mehl Junior, gerente de Negócios Florestais da companhia, relata aproximadamente 90 mil hectares de florestas plantadas sob administração e mais de nove milhões de mudas plantadas anualmente. Cerca de metade do abastecimento vem de produção própria e metade de terceiros. Esse modelo conecta o investimento industrial a produtores independentes, serviços florestais e logística.


A RIQUEZA QUE PERMANECE ONDE A FLORESTA CRESCE

General Carneiro, Sengés, Cruz Machado, Telêmaco Borba, Bituruna e Jaguariaíva ajudam a contar a história de uma cadeia distribuída entre produção primária e transformação industrial. Segundo o IBGE, em dados da PEVS 2024 divulgados pela Casa Civil do Paraná, General Carneiro liderou naquele ano o ranking brasileiro de valor da produção da silvicultura, com R$ 637,2 milhões. Sengés registrou R$ 367 milhões; Cruz Machado, R$ 304 milhões; Telêmaco Borba, R$ 281 milhões; e Bituruna, R$ 275 milhões. Jaguariaíva integra a análise por sua relevância industrial, mas não figurava entre os 15 maiores valores nacionais de produção primária daquele ano.

O retrato mais recente exige uma atualização: na PEVS 2025, General Carneiro passou à terceira posição nacional, com R$ 718,3 milhões em valor da silvicultura. O município permaneceu entre os maiores polos do país, embora tenha perdido a liderança para Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul. A mudança mostra por que ano e indicador precisam acompanhar cada comparação.

A produção primária, contudo, é apenas uma parte da economia local. Em 2023, segundo os dados municipais do IBGE reunidos nesta apuração, o PIB de Telêmaco Borba foi de aproximadamente R$ 6,41 bilhões, ante R$ 2,06 bilhões em Jaguariaíva. Sengés registrou R$ 690,92 milhões; Bituruna, R$ 656,38 milhões; Cruz Machado, R$ 507,96 milhões; e General Carneiro, R$ 437,29 milhões. O PIB inclui todas as atividades econômicas; tampouco pode ser comparado diretamente ao valor bruto da produção silvícola de outro ano.


IBGE – Produto Interno Bruto dos Municípios (2023); IPARDES – Índice Ipardes de Desempenho Municipal (IPDM 2024), com indicadores gerais consultados no painel oficial. Elaboração editorial. Nota metodológica: PIB e IPDM são indicadores distintos e não medem a mesma dimensão do desenvolvimento municipal.


A comparação ganha profundidade com o Índice Ipardes de Desempenho Municipal (IPDM), que reúne informações de renda, incluindo emprego formal e produção agropecuária; educação e saúde. Em 2024, a média geral dos 399 municípios paranaenses foi de 0,6590, segundo o Informe IPDM 2024, do IPARDES.


Gráfico 1 — IPDM geral dos seis municípios, 2024


Fonte: IPARDES, painel IPDM 2024; valores municipais fornecidos em capturas do painel oficial. Linha tracejada: média estadual (0,6590), conforme Informe IPDM 2024, p. 4. Elaboração gráfica própria.


Telêmaco Borba apresentou o maior IPDM do grupo, 0,7155, seguido por Jaguariaíva (0,6839), Bituruna (0,6835), Sengés (0,6602) e Cruz Machado (0,6521). General Carneiro ficou em 0,5655, na faixa de médio-baixo desempenho, apesar de ter liderado o valor da silvicultura nacional em 2024. O contraste não demonstra causalidade entre produção florestal e desempenho social; indica que a dimensão produtiva, isoladamente, não explica a qualidade dos resultados municipais.

O relatório do IPARDES também expõe uma dificuldade estrutural: em 2024, a média estadual da dimensão Renda foi de 0,4971, abaixo das médias de Educação (0,7607) e Saúde (0,7191). Entre 2023 e 2024, 203 municípios registraram queda na dimensão Renda, embora 308 tenham avançado no índice geral. Esses são dados estaduais, não resultados específicos dos seis polos.


Entre os galhos de pinus e o reflexo da vegetação nas águas, a paisagem de Telêmaco Borba (PR) revela a diversidade de formas e texturas que compõem o cenário florestal da região. Foto: Sol Andreassa



DA PRODUÇÃO À RENDA: O ELO QUE PRECISA SER FORTALECIDO

O emprego na floresta envolve viveiros, plantio, manejo, colheita e transporte. Na indústria, a madeira demanda operadores, técnicos, profissionais de manutenção, engenheiros e equipes comerciais. O movimento também alcança oficinas, fornecedores de máquinas, combustíveis e serviços. Mas o tamanho dessa rede não autoriza concluir que todo valor produzido permaneça na cidade: parte dos insumos, equipamentos, tributos e resultados financeiros circula fora dela.

A distinção entre municípios com forte produção primária e aqueles que concentram transformação industrial sugere caminhos de investigação. Agregar etapas produtivas pode ampliar ocupações qualificadas e contratos locais, desde que haja infraestrutura, formação profissional, mercado e competitividade. Os indicadores disponíveis não permitem calcular quanto da riqueza do pinus chega diretamente às famílias; e esse limite precisa ser reconhecido.


O PRÓXIMO SALTO DE COMPETITIVIDADE

A trajetória do pinus no Brasil foi marcada por ganhos de produtividade e pela formação de uma indústria capaz de atender mercados diversos. O desafio seguinte não é apenas ampliar o volume colhido. É desenvolver aplicações, melhorar o aproveitamento da madeira, reduzir perdas, fortalecer fornecedores e criar produtos que capturem maior valor ao longo da cadeia.

Os seis municípios mostram que a mesma base florestal pode conviver com estruturas econômicas e desempenhos sociais diferentes. General Carneiro reúne enorme expressão na produção primária e um IPDM geral inferior à média estadual. Telêmaco Borba combina uma economia municipal muito maior com o melhor índice do grupo. Essas diferenças não são uma sentença sobre cada cidade, mas uma indicação de que produzir, industrializar e distribuir benefícios são processos distintos.



O VALOR QUE AINDA PODE SER EXTRAÍDO

Depois de 120 anos aprendendo a produzir mais madeira por hectare, o próximo salto de competitividade pode não estar em ampliar a produção florestal, mas em extrair mais valor de cada árvore. O conhecimento acumulado, os ganhos de produtividade e a diversificação industrial construíram uma cadeia capaz de abastecer diferentes mercados. Agora, o desafio é avançar na transformação dessa matéria-prima, ampliar sua participação em produtos de maior valor agregado e fortalecer os negócios que se desenvolvem ao redor da floresta.

Os indicadores econômicos e sociais dos municípios paranaenses mostram que essa evolução não ocorre de maneira uniforme. A dimensão da produção florestal, por mais expressiva que seja, não assegura, isoladamente, melhores condições de vida à população. Entre a árvore plantada e o produto que chega ao mercado, existe uma cadeia de decisões, investimentos e oportunidades que pode determinar quanto da riqueza gerada permanece nas regiões produtoras.

O Paraná construiu, ao longo de mais de um século, uma economia que aprendeu a transformar o pinus em madeira, papel, painéis, energia e uma variedade de produtos industriais. O próximo capítulo dessa história dependerá de sua capacidade de transformar também os resultados econômicos em desenvolvimento regional.


Porque, depois de 120 anos, o verdadeiro valor de uma árvore não pode ser medido apenas pelo que dela se extrai, mas pelo que sua existência é capaz de transformar ao redor.


Fontes e notas de apuração

  1. APRE Florestas — Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal. Press kit “120 anos da chegada do Pinus ao Brasil”, disponibilizado à imprensa, com informações sobre a trajetória histórica do pinus, a cadeia produtiva, aplicações industriais e dados empresariais. Estudo Setorial APRE 2024, com indicadores de produtividade das empresas associadas.
  2. IBGE/PEVS 2024, divulgado pela Casa Civil do Paraná: https://www.casacivil.pr.gov.br/Noticia/Com-alta-de-207-Parana-consolida-vice-lideranca-no-valor-da-producao-florestal
  3. IBGE/PEVS 2025, divulgação APRE Florestas (30/09/2026): https://apreflorestas.com.br/noticias/valor-de-producao-da-silvicultura-e-da-extracao-vegetal-cresce-67-e-soma-r-479-bilhoes/
  4. IPARDES, Informe IPDM 2024 (documento oficial enviado para esta apuração); painel municipal do IPDM 2024: https://www.ipardes.pr.gov.br/Pagina/Indice-Ipardes-de-Desempenho-Municipal-0
  5. IBGE, PIB dos Municípios 2023: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9088-produto-interno-bruto-dos-municipios.html
  6. Nota editorial: valores da silvicultura incluem diferentes espécies; PIB e IPDM não isolam a contribuição do pinus. Os seis índices municipais são gerais, não as notas individuais das dimensões Renda, Educação e Saúde.




  1. LEGENDA FOTO 01 - PRINCIPAL: Os anéis de crescimento do pinus registram a passagem do tempo em uma matéria-prima que, ao longo de 120 anos, ajudou a construir uma das mais importantes cadeias produtivas da economia florestal paranaense. Foto: Sol Andreassa



Texto e fotografias: Sol Andreassa