Dia da Amazônia: FSC Brasil aponta o manejo sustentável e a sociobiodiversidade como caminhos para o futuro da floresta em pé
Com acordos institucionais estratégicos e casos de sucesso, a certificação florestal consolida soluções para gerar renda, proteger o meio ambiente e fixar as comunidades na terra
SÃO PAULO — Quando o país celebra o Dia da Amazônia, o debate sobre o futuro do maior bioma tropical do planeta exige mais do que a preservação passiva: requer um modelo econômico capaz de manter a floresta em pé enquanto transforma a realidade de quem vive nela. O FSC Brasil destaca que a promoção da sociobiodiversidade, a valorização dos serviços ecossistêmicos e parcerias estratégicas são chaves para destravar o verdadeiro potencial da região.
Exemplo disso é a parceria firmada pelo FSC Brasil com o Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). Assinado durante a Reunião Anual da GCF Task Force, o Memorando de Entendimento tem como objetivo impulsionar a gestão sustentável e a certificação FSC em Unidades de Conservação (UCs) estaduais. A cooperação técnica prevê diagnósticos, capacitações e a implementação de metodologias para valoração de serviços ecossistêmicos associados às áreas protegidas — como regulação do clima, proteção dos recursos hídricos e manutenção da biodiversidade.
“O modelo de certificação prova que a conservação pode – e deve – ir além da madeira. Iniciativas de manejo sustentável para produtos não madeireiros e até mesmo para o turismo, por exemplo, demonstram que é possível gerar valor econômico respeitando as particularidades da região”, diz Elson Fernandes de Lima, diretor executivo do FSC Brasil.
Para dar ainda mais escala a essa abordagem, o FSC Brasil e o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) firmaram uma carta de intenções durante a última Assembleia Geral do FSC Brasil, em agosto. A cooperação visa fortalecer o manejo florestal comunitário e familiar por meio da certificação, da qualificação de empreendimentos locais e da valorização dos serviços ecossistêmicos. Além de abrir caminhos para projetos conjuntos e captação de recursos, a parceria terá forte atuação na incidência institucional, promovendo o diálogo com governos e a sociedade civil para aprimorar políticas públicas voltadas ao setor — com atenção especial ao Programa Nacional de Manejo Florestal Comunitário e Familiar.
Do institucional ao chão da floresta
Na prática, a viabilidade desse modelo é demonstrada pelos mais de 3.2 milhões de hectares certificados pelo FSC em estados na região amazônica, como o próprio Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia e Mato Grosso.
Um exemplo real é a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, que em 2022 conquistou a certificação FSC após um trabalho contínuo iniciado pelo Idesam em 2006.
Com uma área de produção de 44 mil hectares, os comunitários de Uatumã produzem óleos essenciais vegetais (como copaíba e breu) e objetos de madeira. Mesmo sem acesso à rede elétrica convencional, a comunidade construiu uma miniusina, hoje movida a painéis fotovoltaicos, que, por ano, produz cerca de 60 litros de óleos essenciais, superando R$ 100 mil em faturamento.
“Floresta para gente é tudo”, resume Vidinha Cavalcante, liderança comunitária de Uatumã. “Outro dia, numa palestra com o Eduardo Taveira, ex-secretário do Meio Ambiente do Amazonas, e ele disse que se o agro é pop, a floresta é top, e eu concordo com ele, porque ela é nossa essência”, completa. Para Vidinha, ter o selo FSC dá dignidade, porque permite mostrar para o mundo o respeito que eles têm com a floresta, com o território e com as pessoas que vivem ali. “A certificação nos incentiva a valorizar as vidas, faz com que a gente pense na floresta com um alto valor”.
O triplo impacto: economia, sociedade e meio ambiente
O modelo de manejo responsável quando certificado pelo FSC atua na interseção de três dimensões essenciais para a Amazônia:
- Impacto econômico e valor agregado: A transição do extrativismo bruto para o beneficiamento local — como a destilação de óleos de alto valor agregado em usinas comunitárias — gera renda direta na floresta. Além da madeira manejada e de produtos como castanhas e óleos, o manejo sustentável abre portas para novos vetores econômicos, como o ecoturismo e a inserção em cadeias de suprimento éticas.
- Impacto social e fixação territorial: A geração de oportunidades de trabalho e com valor agregado cria perspectivas para a juventude amazônica, reduzindo o êxodo rural e fortalecendo a governança local.
- Serviços ecossistêmicos e clima: A manutenção do manejo sustentável assegura o equilíbrio hídrico, a manutenção da biodiversidade, a estocagem de carbono e a conservação do ecossistema, permitindo que a floresta continue prestando serviços vitais para o clima global.
Como parte de sua atuação, o FSC Brasil vem trabalhando para preparar os produtores comunitários para relações comerciais mais complexas e orientar as empresas na adaptação de seus processos de compra inclusivos.
"O sucesso dos produtos da sociobiodiversidade não deve ser medido apenas pela escala industrial ou por faturamentos milionários, mas sim pela sua contribuição para o desenvolvimento territorial. O verdadeiro indicador é a garantia de qualidade de vida para que as populações tradicionais e os jovens possam continuar em suas terras de forma digna, protegidos contra a pressão do desmatamento, da grilagem e do garimpo ilegal", destaca .
Neste Dia da Amazônia, o FSC Brasil reforça que o futuro do bioma passa pela ampliação dessas redes de cooperação entre governos, comunidades e iniciativa privada, provando que a conservação ambiental e a prosperidade social caminham juntas.
Texto: Camila Carvas (GWA)
Imagem: divulgação
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