PACTO PELO CÓDIGO FLORESTAL: BELA RETÓRICA, RISCO REAL PARA QUEM PRODUZ
*POR MANOEL FRANCISCO MOREIRA
Li com atenção o dossiê e as reportagens recentes sobre o evento “Pacto pelo Código Florestal”, realizado em Brasília. Confesso: o verniz institucional e as belas declarações causam uma impressão simpática à primeira vista. Mas, ao destrinchar quem ocupa as mesas, os discursos e os espaços de protagonismo, fica claro que há ali uma armadilha que pode amarrar ainda mais a agricultura, a pecuária e a indústria madeireira do país.
É preciso olhar com frieza para a composição das entidades envolvidas. As únicas vozes claramente defensoras da sociedade produtiva são as associações de produtores de óleos e carnes e o Ibá. O resto do coro — a Advocacia-Geral da União, ONGs ambientalistas que beiram o radicalismo, e uma série de órgãos públicos — tem pouca afinidade com a rotina, os desafios e as necessidades do agronegócio e do setor florestal produtivo. Isso não é apenas uma crítica retórica: é um diagnóstico sobre desequilíbrio de representação.
Outro ponto que me perturba: o formato da narrativa jornalística reproduz múltiplos depoimentos de ambientalistas e especialistas, mas destaca quase nenhuma fala da iniciativa privada real — dos produtores que arcam com custos, buscam produtividade e geram empregos. Quando se publica que “o novo código poderá gerar riquezas trilionárias”, falta explicar o mecanismo prático dessa promessa. Números grandiosos sem mapa de implementação são letra morta — e fáceis de transformar em fantasia política.
Os discursos foram, em muitos momentos, oralmente belos. Promoveram consensos, apontaram para soluções tecnológicas e defenderam o diálogo. No entanto, essa retórica de alto nível esconde o ponto central: teoria não planta uma safra, não sustenta uma indústria madeireira, não paga a conta do produtor. Há muita boa intenção discursiva e pouca proposta operacional que concretize os efeitos econômicos anunciados.
Tenho receio de que o tal “Pacto” sirva mais à construção de imagem do que à solução de problemas concretos. Sem mecanismos claros, sem participação efetiva e com peso insuficiente da sociedade produtiva, corremos o risco de ver regras que restringem atividades sem oferecer caminhos viáveis para compatibilizar conservação e produção. E, na prática, isso pode significar mais entraves burocráticos do que ganhos reais.
Por fim, deixo um apelo: se a implementação do Código Florestal deve ser serena e efetiva, precisa partir de governança equilibrada. É imprescindível garantir que representantes da produção — quem vive e investe no campo — tenham protagonismo nas decisões. Sem isso, o processo corre o sério risco de transformar o Código em instrumento de contenção, não de desenvolvimento sustentável.
* Manoel Francisco Moreira, engenheiro florestal, formado pela UFPR.
Cursos: MBA (USP), Economia Empresarial (UFRGS), Mercado-Floresta-Industria (Swedish Universität). Gerente e diretor de empresas multinacionais e brasileiras ao longo da carreira. Fale comigo: moreirachico40@gmail.com | (42) 9 9136.3588.