FLORESTA OMBRÓFILA OU UMBRÓFILA?
Este artigo não contribuirá para a redução ou aumento do uso da madeira, mas pretende corrigir um possível “erro de datilografia” que acabou se tornando oficial.
Na década de 1980, durante a reclassificação das formações florestais brasileiras promovida pelo órgão ambiental federal da época, as matas de Araucária e as florestas até as barrancas do rio Paraná passaram a ser enquadradas como “Mata Atlântica”, a despeito do que já havia sido descrito por Reinhardt Maack em sua clássica obra de classificação das florestas do Paraná e de Santa Catarina.
Dando sequência aos trabalhos conduzidos por botânicos e cientistas ligados aos órgãos governamentais, avançou-se na classificação dos demais maciços florestais brasileiros, até chegar à denominação Floresta Densa Ombrófila Mista. Foi aí que surgiu minha surpresa, pois até então eu sempre ouvira, em aulas de Dendrologia com o Prof. Dr. Jean Dubois (FAO), a referência à floresta umbrófila.
Pelo conhecimento que tenho do Latim, a palavra umbrófila deriva de umbra, que significa sombra. Na formação de termos botânicos, o sufixo “-ófila” indica afinidade; portanto, “umbrófila” significaria literalmente “amiga da sombra”, descrição plenamente coerente para florestas densas e sombreadas. Nesse contexto, não há justificativa linguística clara para a grafia “ombrófila”.
Buscando confirmar essa interpretação, consultei a obra “Latim para Botânicos”, de Carlos Toledo Rizzini, onde encontrei respaldo para a forma umbrófila, reforçando a impressão de que a grafia “ombrófila” não se sustenta sob o ponto de vista etimológico.
Recordo-me de ter visto a publicação da nova classificação florestal no Diário Oficial da União e de ter notado ali a grafia “ombrófila”. Considerando que se tratava de uma época em que os textos ainda eram produzidos por datilografia, é possível que a oficialização do termo tenha se originado de uma transcrição equivocada que acabou sendo perpetuada na terminologia técnica.
Se assim for, estaríamos diante de um raro caso em que um provável erro de datilografia atravessou décadas e se consolidou como nomenclatura oficial.
Texto: Manoel Francisco Moreira – Consultor Florestal
Imagem: ilustrativa
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